Estacionados
Eu e meu carro pelas curvas da vida.
Desço até a garagem do subsolo com a velha chave em mãos, o chaveiro da Torre Eiffel comprado em Paris, mais clichê impossível, ratifica o sentimento agridoce de um passado extremamente confortável.
Ao chegar na garagem, lá está ele, prateado, compacto, estacionado num canto escuro rente à parede; servil, aguarda pacientemente pela próxima oportunidade de quebrar um galho. Caminho até ele, abro-o diretamente com a chave, já não ativo o alarme porque faz com que a bateria acabe mais rápido; a fotocélula acende e revela não só um carro antigo, mas um sentimento atrelado a alguns anos de história.
Em 2010, no meu aniversário de 20 anos, meu pai, para minha surpresa, resolveu me presentear com um Ford Ka. Nunca ousei pedir um carro de presente, seguia a vida andando de ônibus, usava o carro da família vez ou outra ou ele me levava aos lugares. Enfim, havia passado no vestibular, cursava ciências contábeis – para quem me conhece sabe que esse episódio foi um surto em minha vida, mas retornarei a esse ponto daqui a pouco – e ele achou que o carro me ajudaria a “começar a vida”, sabe? Faculdade, estágio, trabalho.
Bastaram três semestres para que eu percebesse que a minha decisão de escolher cursar ciências contábeis foi simplesmente pelo desespero de passar logo numa universidade pública para ingressar na “vida real”, afinal, não aguentava mais permanecer naquele limbo de quem já havia acabado o ensino médio mas não havia passado no vestibular – arrumar um emprego que é bom, nada, né?
Insisti, fiz estágio na área e logo começaram os choros, a angústia de rodar duas vezes em uma mesma matéria, a mensagem de erro ao pegar a prova de Contabilidade I e entregá-la praticamente em branco porque não conseguia fechar o balanço patrimonial e as demais demonstrações financeiras.
Eu me sentia um peixe fora d’água, tinha aquele desejo primitivo de pertencer a alguma coisa e não pertencia a nada, estava como uma sacola de supermercado rolando sem destino pela rua. Hoje, olhando para trás, acredito que a decisão mais sábia teria sido aceitar uma das vagas de emprego das lojas do shopping para as quais me candidatei e fui aceita; teria feito dinheiro e poupado o meu tempo e o dinheiro do meu pai com cursos pré-vestibular, já que acabei optando por cursar Direito numa universidade particular.
No meu meio social eu não deveria aceitar um emprego no shopping porque eu “não precisava” e “meu trabalho era estudar”, um erro cometido pelos baby boomers e que vejo se repetindo pelas gerações seguintes. Muito além do dinheiro, o trabalho nos proporciona experiências que o estudo, isoladamente, não é capaz de oferecer. É na rotina de trabalho que adquirimos as tais soft skills – habilidades sociais, capacidade de lidar com problemas, de liderar, de obedecer, de se adaptar, etc.
Quanto o trabalho do shopping teria me ensinado? Teria aprendido muito mais cedo sobre pontualidade (mas nisto não falho, honestamente), sobre como abordar e como lidar com clientes, como lidar com colegas de trabalho, como gastar melhor o meu salário; além, por exemplo, de descobrir se gostaria ou não de trabalhar com público, vendas, finanças. Não tem jeito, o caminho se faz ao caminhar, tanto que nem os estágios do Direito deram uma visão real da advocacia quanto vivê-la integralmente depois de formada – e todo mundo sabe que apesar de necessário não gostei do que vivenciei.
Mas e o Ford Ka?
Ficou estacionado na estrada da minha vida.
Comecei a advogar, por cerca de dois ou três anos insisti na profissão, tentei “pegar gosto” mas não teve jeito, as experiências vividas em escritórios de advocacia foram bem difíceis e alguns requisitos para ser uma boa advogada esbarravam em meus valores, além de me faltarem certas qualidades pessoais que acredito essenciais para exercer a profissão. Ninguém nos fala sobre isso, mas escolher a profissão é como comprar uma roupa: ela tem que se adaptar ao seu corpo, e não o contrário; se não você fica desconfortável, não é? É muito mais fácil exercer atividades para as quais temos habilidades e interesses “naturais”. Parece óbvio, mas se fosse assim não haveria tantas pessoas perdidas e transições de carreira.
O Ford Ka parou em diferentes postos, não para ser abastecido, mas para me abastecer: advocacia, assesoria jurídica para condomínios (meu pai era síndico profissional), confeitaria. Estacionou, finalmente, na redação publicitária, como uma solução temporária para pagar minha faculdade de Nutrição – mas que ganhou meu coração e me fez, inclusive, buscar orientação profissional para que pudesse focar na Nutrição sem remorsos ou dúvidas. Foi na redação publicitária, aliás, incentivada por uma cliente, que a Carta Branca surgiu, digo e repito: o trabalho, de forma totalmente inesperada, pode nos ajudar a descobrir habilidades, vocações e até mesmo hobbies.
Não sei exatamente quando surgiu, mas passei a ter vergonha do Ford Ka, rezava para que ninguém que conheço, salvo as pessoas íntimas, me encontrassem dirigindo-o. Não faço essa afirmação com orgulho, aliás, reconhecer esse sentimento me deixa envergonhada, tenho vergonha de sentir vergonha do meu carro porque me sinto hipócrita, sinto que me rendi ao medo do julgamento público, ao que “os outros” (quem são eles?) vão pensar. Gostamos de pensar que somos diferentes, que não nos vendemos pela aprovação alheia, mas não é bem assim; só os santos têm essa graça.
Divagando nesta Carta sobre a vergonha do Ka, percebo que projeto nos outros o que penso de mim mesma: penso que, à beira de trinta e muitos anos, pouco fiz com o muito que me foi dado, e o carro velho é o reflexo das más decisões que tomei – na verdade, muito mais das minhas indecisões e inconstâncias. Se minha cabeça estivesse mais no Céu do que na terra, agradeceria a Deus por ter um carro, ainda que velhinho, porque é muito mais do que mereço, mas me falta fé e me sobra vaidade, orgulho, cobiça e inveja.
Quando consegui colocar esse sentimento em palavras, meu marido compreendeu e tentou me consolar afirmando que temos o outro carro, o carro da família, e que é meu também. Ele não está errado, é o nosso carro que, aliás, é lindo, novo, cheiroso, confortável e que uso com muito mais frequência do que ele. No entanto, o sentimento de que falhei, de que não aproveitei as oportunidades que me foram dadas de bandeja simplesmente não vai embora.
Estou escrevendo esta Carta há um bom tempo, a falta de tempo ou a sobra dele somado ao cansaço de faculdade e a rotina integral com um bebê de um ano culminaram na demora em concluí-la. No entanto, essa demora veio a calhar porque comecei a ler aquele clássico O vermelho e o negro, do autor Stendhal. No livro, o personagem Julien Sorel percebe que não basta ser, é preciso parecer, inclusive, ser pode ser um empecilho dependendo do contexto em que estamos.
Quando entra no seminário para se tornar padre, pensa que seu conhecimento em latim, suas orações e versículos decorados serão bem vistos, no entanto, lá a humildade cristã era pervertida no sentido de que não se podia ter uma ideia própria e era necessário fingir ser bruto e ignorante. Não importa o que está no coração do seminarista, mas sim se ele faz o sinal da cruz no tempo certo ou se mantém os olhos baixos com a inclinação exata. É o “parecer” levado ao nível do adestramento.
Durante a leitura comecei a me irritar com o tal Julien Sorel, mas a vergonha do meu carro velho não é diferente da modulação de comportamento do personagem, já que eu também morro de medo de que as pessoas (de novo, quem?) descubram que não sou o quem elas acham que sou, que falhei, que não tive o tal sucesso “esperado”.
Mas estamos entrando na Semana Santa, um período que, para mim, é de reflexão, e refletindo sobre o motivo que celebramos a Páscoa – a paixão de Cristo, e não o coelhinho e os chocolates, apesar de deliciosos –, vejo que a publicação desta Carta será, para mim, uma oportunidade de “humilhação pública”, se Cristo foi humilhado, quem sou eu para ter vergonha do meu carro velho e da minha hipocrisia?
Eu falhei, falhei mesmo, dane-se, a minha culpa “minha tão grande culpa”, como rezamos no Ato Penitencial, é o acúmulo de pensamentos desconexos, palavras vazias, atos levianos e omissões ao longo desses anos, logo, tudo o que tenho é tudo o que mereço.
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo1.
Já assistimos a filmes e lemos livros sobre o tema, mas não entra em nossa cabeça que Deus não espera que sejamos ricos (lembra do camelo passando pelo buraco da agulha2?), mas que sejamos bons. Nossos bens materiais até podem ser resultado de um trabalho virtuoso, aquele feito com honestidade, diligência, paciência, serviço ao próximo; mas, ao mesmo tempo, podem ser resultado de ganância, de avareza, de negligência à família, de megalomania, de golpe.
Leitor, esta é uma Carta em que eu, a remetente, sou a principal destinatária, já que afirmei publicamente que sinto vergonha de ter falhado naquilo que este ente abstrato chamado sociedade esperava de mim e que meu carrinho velho é umas dessas provas. Para coroar esta minha “humilhação”, recordo do que inocentemente uma criança falou para uma pessoa da minha família:
“Ela é tão bonita para dirigir aquele carro”.
É claro que ri, mas se o motor é velho, a motorista pelo menos é bonita. E criança é sincera, não é? Não diga nada, deixe eu acreditar que sim.
Espero honestamente que você não seja bobo como eu, que não se envergonhe do pouco que tem porque esse pouco, dado ou conquistado de forma honesta, é muito; significa que você não sucumbiu às aparências3, não procurou atalhos, não se endividou ou ludibriou alguém para comprar bens que estão, até o momento, fora do seu alcance. Significa que você coloca a cabeça no travesseiro com a tranquilidade de que não receberá uma ligação de ameaça ou uma carta de citação do oficial de justiça.
Quanto isso vale? Muito mais do que o Ford Ka – o que também não é difícil, convenhamos.
Aliás, quando teremos o suficiente? Quando diremos “basta, assim está bom, não preciso de absolutamente mais nada”?
Já tenho o suficiente, o que não significa que não irei mais trabalhar, estudar e me aprimorar, e sim que preciso acordar e perceber que já tenho o que preciso para viver de acordo com o que Deus espera de mim. Já sabemos o que acontece quando conquistamos aquilo que almejamos: partimos para a próxima insatisfação.
O Ford Ka segue estacionado na minha garagem do prédio, ele não brilha como o carro da família, não impõe respeito no trânsito e certamente não sustenta a imagem da advogada ou da nutricionista de sucesso que o mundo espera aos trinta e tantos. Mas ele está ali, é o que tenho, é o meu ponto de realidade.
É o testemunho silencioso de que a vida não foi uma linha reta, mas uma sucessão de curvas, retornos e paradas bruscas – e pelo menos eu não capotei. Se eu tivesse tido o “sucesso” imediato, talvez nunca tivesse buscado a redação, a Nutrição ou a própria Carta Branca. Talvez eu ainda estivesse tentando fechar um balanço patrimonial com a alma vazia, apenas para pertencer a qualquer coisa.
Chego da rua, abro o portão e estaciono o Ka na garagem do subsolo. Suada pela falta de ar condicionado, pego o elevador com mil sacolas da feira e retorno para o meu bebê, para o meu marido, para os meus estudos e para a minha vida real. O Ka fica lá embaixo, no escuro, guardando a minha história. Ele é o meu “suficiente”. E, pela primeira vez em muito tempo, sinto que o suficiente é, na verdade, uma abundância que eu não sabia nomear.




Bianca, eu me vi no teu texto (risos). Parecia que eu estava lendo um pedacinho da minha história. Também mudei de curso; fazia Pedagogia e quando chegou a tal matéria Estatística, caí fora, pois não entendia bulhufas. Fui fazer Direito, em Blumenau. A vida deu uma guinada e de Blumenau fui morar em São Paulo e na sequência, Porto Alegre. Naquela época, para conseguir transferência de faculdade, só para funcionário público e/ou que estivesse cursando em universidade pública, o que não era o meu caso. Estava no 8º semestre em Blumenau. Em Porto Alegre tive que fazer cursinho pré-vestibular. Resumindo: fiz mais três anos e meio de Direito, porque nem todas as matérias foram aproveitadas. Foi quase um intercâmbio acadêmico interno (hahaha). Colei grau só de raiva, pois a motivação era pouca. Advoguei uns dois ou três anos e desisti.
E sobre o teu Ford Ka, valoriza sim! Nada de velho! É estiloso e super atual - reutilizar tá na moda.
Hoje isso é consciência, estilo e personalidade - o vintage é o novo luxo, guria!
Beijo!
O Celtinha branco aqui da garagem — que nem é meu, mas da minha esposa — também parece um monumento feito para "tirar sarro" das minhas inseguranças e descaminhos na vida. Como um memorial mostrando para o mundo que tentei tantas coisas, tinha tantos caminhos possíveis... e no fim, não optei por nenhum.
"O Daniel do passado, que parecia tão promissor, se tornou isto aqui?" Mas quero impressionar a quem mesmo?
Eu tenho uma esposa, um filho prestes a nascer, um carrinho que bem ou mal nos leva para todo lugar, comida na mesa e um trabalho qual recebo sustento e posso fazer uso das minhas poucas — e recebidas pela Graça — habilidades.
Meus anseios mais básicos e necessários já foram sanados há muito tempo. Lendo agora sua carta, sinto que maquio covardia e falta de fé com "só preciso de x coisa para estar melhor".
Obrigado, Bianca.