Prefiro bicho do que gente.
Eu sei que a Carta de hoje vai doer em algumas pessoas e o meu aviso é: não leve para o lado pessoal, entenda como uma leitura da realidade, e não como uma crítica pessoal.
Certa vez ouvi esta frase:
– Prefiro bicho do que gente.
Perdoe-me, mas não há frase mais estúpida do que essa.
Existem pessoas insuportáveis e abomináveis? Sem dúvidas. Mas você já parou para pensar que essas pessoas se assemelham aos bichos? Ou seja, o bicho não é melhor do que o humano, é o humano que se rebaixa ao nível animalesco e causa essa falsa impressão.
E talvez, neste diálogo silencioso que travamos através desta Carta, você se pergunte: Bianca, você está afirmando que os animais são seres inferiores?
Sim, estou afirmando exatamente isso, no entanto, não coloque palavras na minha boca, isso não é motivo para maltratos ou repulsa.

Estou pura e simplesmente afirmando que os animais, por sua própria natureza, não são capazes de oferecer à alma humana o que outra alma humana é capaz de oferecer.
Nossos cachorrinhos e gatinhos são capazes, sim, de nos oferecer companhia e trazer momentos alegres – quem não ama perder um tempinho da vida nas redes sociais vendo vídeos de bichinhos fazendo coisas fofas ou engraçadas?
No entanto, o potencial dos animais é limitado. Eles não são capazes de nos amar sem medida e tampouco conseguem estabelecer uma conexão tão profunda quanto a que pode existir entre dois seres humanos.
E é justamente aqui que começa a confusão que abre espaço para a humanização dos animais: o homem, cada vez mais envolvido na fuga da dor e na busca pelo prazer, perde a capacidade de amar genuinamente, se assemelhando, portanto, a um quadrúpede.
Por isso que aquela afirmação é quase irresistível, quem não se irrita com um ser humano que, cheio de potencialidades, se limita a uma existência animal fazendo só o que tem vontade?
Quando presenciamos um barraco entre vizinhos que termina em violência física, o que afirmamos?
– Bando de bichos.
Essa afirmação deixa evidente que não esperamos que dois seres humanos, adultos, capazes e livres para escolher como agir, ajam como bichos, cuja única reação possível, dada a própria natureza, é a violência.
Há algum tempo, num ótimo canal sobre viagens no YouTube chamado As viagens de Antônio, ele esteve no Japão e falou um pouco sobre a febre dos pets. Há “cafés” especiais para você levar seu cachorro para brincar com outros, funciona como uma “cachorroterapia”, vários donos sentados no chão e os cachorros ali “socializando”.
Logo me veio à cabeça outro documentário que assisti sobre sexo e relacionamento no Japão: lá as pessoas têm muita dificuldade de socializar e se relacionar; esse é um dos motivos pelo qual é um dos países em que se mais consome pornografia e onde aquelas bonecas de silicone fazem sucesso.
Você consegue perceber a ligação entre uma coisa e outra?
A perda da capacidade de ter relações mais profundas e significativas com a consequente substituição de humanos por animais.
Será que isso é bom para os próprios animais?
Será que eles foram criados para andar em carrinhos dentro do shopping e ganhar festinha de aniversário?
Será que é saudável que vivam em apartamentos, na maior parte do tempo sozinhos sem gastar energia, sem colocar as patinhas na terra e tomar um solzinho?
Será que é saudável que fiquem absurdamente dependentes dos donos a ponto de adoecerem quando distantes – e a ponto dos donos programarem e limitarem a própria vida em função do bichinho?
Aliás, conforme uma amiga que trabalha com cães me disse, não se diz mais “dono”, e sim tutor. Inclusive, encontrei essa informação na internet:
A palavra dono significa, segundo o dicionário, proprietário, possuidor, aquele que tem completo poder ou controle. A palavra dono acaba sendo bem empregada quando falamos de propriedades. Então “fulano é dono daquele carro”, mostrando uma relação de posse do carro e controle sobre ele.
Com relação aos animais, a palavra tutor acaba se encaixando melhor. Uma vez que o significado de tutor é: “indivíduo que exerce uma tutela, aquele que ampara, protege, guardião”. Quando pensamos em animais, faz muito mais sentido pensarmos nos donos agora como tutores. Pois os animais sendo seres vivos, precisam de cuidado, proteção, amparo, e não apenas de um possuidor.
Pois é, eu sempre digo que palavras moldam o nosso imaginário, e esse é um sinal evidente de que os animais estão, cada vez mais, sendo equiparados aos seres humanos.
Mas pet é pet. Humano é humano.
Quem prefere bicho do que gente já perdeu a capacidade de se conectar e compreender seu semelhante.
Conviver com seres humanos envolve paciência, capacidade de ouvir sem retrucar, de ceder, de falar as coisas no tom e na hora certa sem partir pra agressão, de entender a perspectiva do outro, de respeitar, de cuidar, aconselhar. Conviver com bicho envolve limpar as sujeirinhas dele, oferecer comida, fazer um carinho, levar ao veterinário, jogar bolinha e dar o biscoitinho.
É muito mais fácil atender as demandas de um bicho – e ser amado por ele – do que de uma pessoa, não é mesmo?
Esta Carta não vai terminar com uma grande conclusão ou com uma frase de impacto, mas com uma reflexão que todos nós somos convidados a fazer a partir desta frase de G.K Chesterton:
Onde quer que haja adoração a animais, ali haverá sacrifício humano.
E a questão é: como nos tornar mais humanos e menos animalescos? Não sendo refém das próprias vontades e tendo a compreensão de que nascemos para amar uns aos outros já é um bom começo, mas isso é um papo para uma próxima Carta.


